Toda empresa familiar que deu certo tem uma história parecida. Alguém começou com pouco, trabalhou muito, conhecia cada cliente pelo nome e decidia tudo na conversa da cozinha. Esse jeito de fazer as coisas virou a alma do negócio. Só que, em algum momento, a empresa cresce, chegam mais pessoas, a segunda geração entra, e aquilo que funcionava no olho do dono começa a falhar.
É nessa hora que aparece a palavra profissionalizar, e com ela um receio legítimo: vamos virar uma empresa fria, cheia de processo, igual a qualquer outra?
A essência mora na cultura
Edgar Schein, uma das principais referências em cultura organizacional, mostrou em Organizational Culture and Leadership que os fundadores têm um papel enorme na formação da cultura. As crenças e os valores de quem criou a empresa viram, com o tempo, o jeito que o grupo aprende a resolver os seus problemas. Esse aprendizado se repete porque funcionou, até virar hábito, e boa parte dele acontece sem que ninguém perceba.
Aí mora o risco. Enquanto a essência vive só na cabeça do fundador, ela depende da presença dele em cada decisão. Quando ele não está, ou quando a empresa fica grande demais para ele estar em tudo, ela se dilui. Profissionalizar bem é tirar essa essência da cabeça de uma pessoa e colocá-la no jeito de trabalhar de todo mundo.
Os três chapéus
Na empresa familiar, a mesma pessoa costuma usar três chapéus ao mesmo tempo: o de familiar, o de sócio e o de gestor. O pai que é também o dono e o diretor. A filha que é herdeira e também gerente. Quando esses papéis se misturam sem nenhuma regra, as conversas mais difíceis viram brigas de família, e as brigas de família viram decisões de negócio.
Um dos passos mais importantes da profissionalização é separar esses chapéus: o que se decide no conselho da família, o que se decide como sócio e o que se decide na gestão do dia a dia, com critérios claros para cada espaço.
Sucessão por critério
Um estudo de Nicholas Bloom e John Van Reenen, publicado em 2007 no Quarterly Journal of Economics, analisou práticas de gestão em centenas de empresas de vários países. Um dos achados chamou atenção: a gestão costumava ser pior nas empresas familiares que passavam o comando para o filho mais velho, pela tradição. O ponto do estudo é o critério da escolha: quando o cargo passa por tradição, a empresa abre mão de escolher quem está mais preparado para ele.
Preparar a sucessão com tempo, avaliar competências com honestidade e abrir espaço para quem tem mais condições de conduzir, seja da família ou não, é uma das formas mais concretas de cuidar do que os fundadores construíram.
Por onde começar
- Nomear os valores pelo comportamento. Escreva como cada valor aparece na prática e como ele não aparece, com exemplos reais da empresa.
- Esclarecer papéis. Quem decide o quê, com qual critério, e o que cada cargo entrega.
- Separar os chapéus. Criar espaços diferentes para as conversas da família, dos sócios e da gestão.
- Preparar as lideranças. Gente promovida pela confiança do dono precisa de apoio para liderar pela competência.
- Planejar a sucessão antes de precisar dela.
- Incluir quem chega. Profissionais de fora da família, de outras gerações e com outras histórias precisam sentir que têm lugar e voz, senão a empresa contrata talento e perde em poucos meses.
Uma empresa familiar bem profissionalizada continua tendo cheiro de casa. A diferença é que agora a casa tem estrutura para receber mais gente, atravessar gerações e seguir funcionando quando o fundador tira férias.
Esse é o trabalho que eu faço na Cultura de Gente Grande: um projeto de no mínimo 12 meses que traduz os valores da empresa em práticas, rituais e comportamentos, e prepara as lideranças para sustentá-los. Se a sua empresa está nesse momento, vamos conversar.
Conversar no WhatsApp →